Pesquisa publicada na revista Cancer sugere ampliar de 18 para 36 meses o período usado para classificar pacientes com mieloma múltiplo funcional de alto risco, refletindo os avanços dos tratamentos atuais.
Os avanços no tratamento do mieloma múltiplo estão mudando a forma como médicos identificam os pacientes com maior risco de evolução da doença. Um estudo publicado na revista Cancer, da Sociedade Americana do Câncer, propõe ampliar de 18 para 36 meses o período utilizado para definir o chamado mieloma múltiplo funcional de alto risco.
Segundo os pesquisadores, o novo critério acompanha a realidade dos tratamentos atuais, que conseguem controlar a doença por mais tempo. A mudança pode permitir que pacientes com pior prognóstico sejam identificados mais cedo e tenham acesso prioritário a terapias inovadoras ou estudos clínicos.
O que você precisa saber
- O fato: estudo sugere ampliar de 18 para 36 meses o critério para classificar pacientes com mieloma múltiplo funcional de alto risco.
- Quando: proposta foi apresentada em estudo publicado na revista Cancer.
- Onde: pesquisa divulgada pela Sociedade Americana do Câncer.
- Importa porque: o novo critério pode identificar mais cedo pacientes com pior prognóstico e orientar tratamentos mais adequados.
Os tratamentos mudaram o comportamento da doença
O mieloma múltiplo é um câncer que afeta os plasmócitos, células produzidas pela medula óssea responsáveis pela produção de anticorpos. Em parte dos pacientes, a doença volta ou progride pouco tempo após o tratamento inicial, situação conhecida como mieloma múltiplo funcional de alto risco e associada a menor expectativa de sobrevida.
Até agora, essa classificação considerava principalmente os casos em que a progressão ocorria nos primeiros 18 meses após o início do tratamento. Esse parâmetro, porém, foi definido antes da adoção das terapias mais modernas.
Atualmente, muitos pacientes recebem uma combinação de quatro medicamentos, incluindo anticorpos monoclonais, inibidores de proteassoma, imunomoduladores e corticoides. Em muitos casos, o tratamento é seguido por transplante autólogo de células-tronco, estratégia que aumentou o tempo de controle da doença.
Pesquisa aponta novo intervalo para definir alto risco
O estudo acompanhou 310 pacientes recém-diagnosticados tratados com terapia quádrupla seguida de transplante autólogo de células-tronco durante cerca de três anos e meio. Nesse período, ocorreram 66 casos de progressão da doença.
Os pesquisadores compararam diferentes intervalos para definir o alto risco funcional, entre 12, 18, 24 e 36 meses após o início da terapia. O limite de 36 meses foi o que melhor identificou os pacientes cuja sobrevida após a progressão permaneceu inferior a dois anos.
Segundo os autores, os resultados mostram que a eficácia das terapias atuais permite controlar o mieloma múltiplo por mais tempo. Mesmo assim, quando a doença reaparece dentro dos primeiros três anos, o prognóstico continua sendo desfavorável, indicando a necessidade de tratamentos diferenciados.
Os pacientes cuja doença progrediu nos primeiros 36 meses representaram 16,4% da amostra analisada.
Critérios atuais podem deixar pacientes de fora
Outro resultado do estudo mostrou que os sistemas tradicionais de classificação nem sempre conseguem identificar todos os pacientes com evolução mais agressiva da doença.
Entre aqueles enquadrados no novo critério de alto risco funcional, mais de um terço ainda era classificado como de baixo estágio por um dos principais sistemas utilizados atualmente. Além disso, pouco mais da metade permanecia na categoria de risco padrão em outro modelo amplamente empregado na prática clínica.
Na avaliação dos pesquisadores, esse resultado indica que a evolução clínica do paciente continua sendo uma informação importante e pode complementar os exames realizados no momento do diagnóstico.
Terapias direcionadas apresentaram melhores resultados
O estudo também avaliou os tratamentos utilizados após a progressão da doença. Pacientes que receberam terapias de redirecionamento de células T apresentaram resultados superiores aos observados com outras abordagens.
Após um ano, 80% desses pacientes permaneciam sem nova progressão da doença, enquanto entre aqueles tratados por outras estratégias o índice foi de 23%.
A taxa de resposta ao tratamento também foi mais elevada. O estudo registrou resposta em 91% dos pacientes submetidos às terapias de redirecionamento de células T, contra 47% entre os demais. Segundo os autores, essa associação permaneceu mesmo após os ajustes estatísticos realizados na análise.
Nova definição ainda depende de confirmação
Os pesquisadores defendem que, na era dos tratamentos modernos, o mieloma múltiplo funcional de alto risco passe a incluir pacientes cuja doença progride até 36 meses após o início da terapia, substituindo o limite atual de 18 meses.
Na avaliação da equipe responsável pelo estudo, a mudança pode permitir uma identificação mais precisa dos pacientes com pior prognóstico, direcionando esse grupo mais cedo para tratamentos inovadores e para a participação em ensaios clínicos.
Os autores ressaltam, porém, que os resultados ainda precisam ser confirmados por estudos independentes antes que a nova definição seja incorporada às diretrizes clínicas utilizadas no tratamento do mieloma múltiplo.
Fonte: G1
