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segunda-feira, 3 agosto, 2026
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Traumas passam de pais para filhos? O que a neurociência já sabe sobre a transmissão entre gerações

Estudos indicam que fatores biológicos, ambientais e epigenéticos podem influenciar gerações futuras, mas não há evidências de que memórias traumáticas sejam herdadas.

A ideia de que traumas vividos por uma geração podem ser transmitidos aos filhos desperta interesse há anos, mas a neurociência ainda não encontrou evidências de que memórias traumáticas sejam herdadas. O que os estudos indicam é que fatores ligados ao ambiente familiar, à gestação e a mecanismos epigenéticos podem influenciar a forma como as próximas gerações respondem ao medo e ao estresse.

Segundo pesquisas reunidas por cientistas da Universidad de Jaén, na Espanha, o trauma não é transmitido como uma lembrança específica. O que pode ocorrer é uma maior sensibilidade dos sistemas biológicos responsáveis pela resposta ao estresse, resultado da interação entre fatores genéticos, experiências de vida e ambiente.

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O que você precisa saber

  • O fato: não há comprovação científica de que memórias traumáticas sejam herdadas.
  • Quando: conclusão baseada em estudos recentes da neurociência.
  • Onde: pesquisas internacionais sobre cérebro, epigenética e desenvolvimento humano.
  • Importa porque: ajuda a compreender como fatores biológicos e ambientais influenciam a saúde mental das próximas gerações.

O trauma modifica redes importantes do cérebro

Estudos de neuroimagem mostram que experiências traumáticas podem provocar alterações em estruturas como a amígdala, responsável pela identificação de ameaças, o córtex pré-frontal, ligado ao controle das emoções, e o hipocampo, que participa da formação e da contextualização das memórias.

Essas regiões trabalham em conjunto para interpretar situações de risco e regular as respostas emocionais. No entanto, não existe um padrão cerebral único capaz de explicar todos os casos de trauma, e essas alterações permanecem restritas ao cérebro da pessoa que viveu a experiência.

O ambiente familiar influencia o desenvolvimento infantil

O desenvolvimento cerebral das crianças ocorre em constante interação com o ambiente. Expressões, comportamentos e reações dos pais ajudam os filhos a identificar situações consideradas seguras ou perigosas.

Uma meta-análise citada pelos pesquisadores mostrou que bebês tendem a demonstrar mais medo diante de um estímulo novo quando observam seus pais reagindo com insegurança. Apesar disso, os estudos indicam que esse efeito, por si só, não determina o surgimento de transtornos mentais, já que fatores como apoio familiar, ambiente social, características individuais e experiências futuras também exercem influência.

A gestação também pode influenciar o desenvolvimento do cérebro

Os pesquisadores explicam que situações de estresse intenso durante a gravidez podem provocar alterações hormonais, metabólicas e inflamatórias que fazem parte do ambiente onde o cérebro do feto se desenvolve. Essas mudanças podem estar associadas a diferenças posteriores na regulação emocional e na resposta ao estresse.

Mesmo assim, os estudos ressaltam que é difícil separar esses efeitos de outros fatores, como alimentação, condições socioeconômicas, saúde materna e ambiente após o nascimento. Por isso, os autores consideram mais adequado falar em programação pré-natal do que em herança biológica entre gerações.

A epigenética ainda levanta perguntas

A epigenética estuda alterações que regulam a atividade dos genes sem modificar a sequência do DNA. Em animais, existem evidências de que alguns sinais ambientais possam influenciar descendentes. Em seres humanos, porém, essa hipótese ainda depende de novos estudos.

Os autores citam uma pesquisa publicada em 2025 com famílias sírias expostas à violência que identificou padrões de metilação associados à experiência vivida. Apesar dos resultados, o próprio estudo destaca que os dados precisam ser confirmados em novas investigações e não demonstram que um trauma psicológico seja herdado.

A capacidade de adaptação continua sendo decisiva

A conclusão apresentada pelos pesquisadores é que a biologia pode influenciar a sensibilidade ao estresse, mas não determina o destino de uma pessoa. Relações familiares seguras, acesso à saúde, boas condições de vida e tratamentos adequados continuam sendo fatores capazes de modificar a resposta do cérebro ao longo da vida.

Segundo os autores, a melhor interpretação das evidências atuais é que herdamos possibilidades biológicas, e não memórias traumáticas. A neurociência continua investigando como genética, ambiente e desenvolvimento interagem ao longo das gerações.

Fonte: G1

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