Sem exame de rastreamento para a população em geral, o câncer de pâncreas costuma apresentar sintomas inespecíficos e, muitas vezes, só é identificado quando já compromete a via biliar ou se espalhou para outros órgãos.
O câncer de pâncreas está entre os tumores com menor taxa de sobrevida porque, na maioria dos casos, é descoberto apenas em estágio avançado. Sem um exame de rastreamento recomendado para a população em geral, os primeiros sintomas costumam ser confundidos com problemas digestivos comuns, como gastrite, má digestão e cansaço. As informações são de reportagem do G1.
Segundo estimativa do Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deverá registrar mais de 13 mil novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028. Embora represente pouco mais de 1% dos diagnósticos de câncer no país, o tumor responde por cerca de 5% das mortes provocadas pela doença.
O que você precisa saber
- O fato: o câncer de pâncreas geralmente é diagnosticado tardiamente porque os sintomas iniciais são pouco específicos.
- Quando: a estimativa do Inca é válida para o período entre 2026 e 2028.
- Onde: dados referem-se ao Brasil e incluem informações de estudos internacionais sobre sobrevida.
- Importa porque: identificar rapidamente sinais de alerta pode acelerar a investigação médica e ampliar as opções de tratamento.
O pâncreas favorece o diagnóstico tardio
O pâncreas fica localizado profundamente no abdômen, entre o estômago e a coluna, cercado por importantes vasos sanguíneos. Segundo o cirurgião Marcos Belotto, do Centro Oncológico do Hospital Nove de Julho, essa posição faz com que o tumor possa atingir estruturas vizinhas antes de provocar sinais evidentes.
Por esse motivo, menos de 30% dos pacientes recebem o diagnóstico quando ainda podem ser submetidos à cirurgia, considerada atualmente a única alternativa com potencial de cura. Nos demais casos, o tratamento busca controlar a evolução da doença com quimioterapia e terapias direcionadas.
Os sintomas costumam ser confundidos com outras doenças
Os primeiros sintomas dificilmente chamam atenção para um câncer de pâncreas. Dor abdominal, perda de apetite, emagrecimento, fadiga e desconforto digestivo também aparecem em diversas doenças mais frequentes, o que dificulta o reconhecimento precoce.
Segundo o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, o problema não está na intensidade dos sintomas, mas na falta de especificidade. Na prática, pacientes e médicos costumam investigar primeiro causas mais comuns antes de considerar um tumor pancreático.
Quando o câncer cresce na cabeça do pâncreas, pode bloquear a passagem da bile. Nessa fase surgem sinais mais característicos, como pele e olhos amarelados, urina escura, fezes claras e coceira intensa, situação que normalmente leva à realização de exames de imagem.
Não existe rastreamento para a população geral
Apesar de a descoberta precoce aumentar significativamente as chances de sobrevida, ainda não existe um exame de rastreamento recomendado para o câncer de pâncreas na população em geral. Segundo Stephen Stefani, nenhum teste disponível reúne precisão, custo e impacto suficientes para justificar seu uso em larga escala.
A ressonância magnética, por exemplo, consegue identificar tumores, mas, quando aplicada em pessoas sem sintomas, pode encontrar alterações sem importância clínica e levar à realização de exames invasivos desnecessários. O especialista afirma que nenhuma sociedade médica recomenda o rastreamento rotineiro da doença.
Sem um exame de rotina, a orientação é reduzir fatores de risco conhecidos, como tabagismo, consumo excessivo de bebidas alcoólicas, sedentarismo e alimentação inadequada. Essas medidas diminuem a probabilidade de desenvolver a doença, embora não eliminem completamente o risco.
Alguns grupos precisam de acompanhamento específico
O acompanhamento periódico é indicado para pessoas com risco elevado de desenvolver câncer de pâncreas. Estão nesse grupo pacientes com histórico familiar importante, síndromes genéticas relacionadas à doença e casos de pancreatite crônica ou recorrente.
Segundo os especialistas ouvidos pelo G1, pessoas com dois parentes de primeiro grau diagnosticados apresentam risco significativamente maior do que a população em geral. Quando existem três ou mais familiares afetados, esse risco aumenta ainda mais. Nessas situações, exames de imagem periódicos e testes genéticos podem fazer parte do acompanhamento médico.
Novos tratamentos ampliam a expectativa dos pacientes
Enquanto o diagnóstico precoce continua sendo um desafio, as opções de tratamento evoluíram. Durante o congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO) de 2026 foram apresentados os resultados de um estudo de fase 3 com o daraxonrasib, medicamento oral desenvolvido para tumores com mutações no gene RAS, alteração presente em cerca de 90% dos casos de câncer de pâncreas.
Segundo o estudo, publicado simultaneamente no New England Journal of Medicine, a sobrevida global mediana passou de 6,7 meses para 13,2 meses entre os pacientes tratados com o medicamento, acompanhado de redução de 60% no risco de morte em comparação com a quimioterapia utilizada no grupo de controle.
O medicamento ainda não possui registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) nem aprovação definitiva da Food and Drug Administration (FDA). Nos Estados Unidos, existe um programa de acesso expandido para pacientes elegíveis enquanto o processo regulatório continua em andamento.
O diagnóstico precoce continua sendo o maior desafio
A história da aposentada Elizabeth Paes Gomes ilustra uma situação frequente entre pacientes com câncer de pâncreas. Após meses convivendo com dores atribuídas a problemas digestivos, ela procurou atendimento quando percebeu o amarelamento da pele. O exame identificou um tumor pancreático, e a cirurgia foi realizada poucos dias depois.
Mesmo após uma metástase pulmonar e o retorno da quimioterapia, Elizabeth mantém a rotina de atividades físicas, encontros com amigos e lazer. Ela acompanha a evolução das pesquisas e espera que novos tratamentos sejam aprovados para ampliar as opções disponíveis aos pacientes.
Segundo os especialistas, reconhecer sinais persistentes e procurar avaliação médica quando surgirem sintomas como icterícia, urina escura, fezes esbranquiçadas, perda de peso sem causa aparente ou dor abdominal contínua pode acelerar a investigação. O diagnóstico definitivo depende de avaliação médica e exames específicos.
Fonte: G1
