Derrota para a Noruega provocou frustração em milhões de torcedores. Psicólogos explicam por que o sofrimento é real, como as redes sociais prolongam esse sentimento e quando é hora de buscar ajuda
A eliminação da seleção brasileira da Copa do Mundo de 2026, após a derrota por 2 a 1 para a Noruega, provocou tristeza, frustração e sensação de vazio em milhões de torcedores. Segundo psicólogos ouvidos pelo g1, esse sofrimento pode ser explicado pelo chamado “luto esportivo”, uma reação emocional provocada pela perda de um objetivo coletivo construído ao longo da competição.
Embora o luto esportivo não seja considerado um diagnóstico clínico, ele descreve um processo psicológico reconhecido por especialistas. A intensidade dessa reação varia conforme o vínculo emocional que cada pessoa desenvolve com o esporte, a seleção e o significado que o futebol ocupa em sua vida.
O que você precisa saber
- O fato: Psicólogos explicam que a eliminação da seleção pode desencadear um processo conhecido como luto esportivo.
- Quando: Após a derrota do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo de 2026.
- Onde: O impacto emocional ocorre entre torcedores em diferentes regiões do país.
- Importa porque: As emoções podem ser intensificadas pelas redes sociais e pelos algoritmos, prolongando a sensação de tristeza.
O luto esportivo surge quando uma expectativa coletiva chega ao fim
Segundo o psicólogo esportivo João Ricardo Cozac, presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte, o torcedor não perde apenas uma partida. O que desaparece é uma expectativa construída durante semanas ou meses, acompanhada por planos, encontros familiares e pela esperança de comemorar um título.
Ao g1, Cozac explica que esse processo se assemelha ao enfrentamento de outras perdas simbólicas. O cérebro precisa reorganizar expectativas que deixaram de existir de forma repentina, o que ajuda a explicar sentimentos como tristeza, frustração, raiva e sensação de vazio.
O impacto emocional depende da relação de cada torcedor com o futebol
Nem todas as pessoas vivenciam uma eliminação da mesma forma. Para alguns, o futebol é apenas entretenimento. Para outros, faz parte da identidade, das tradições familiares e das relações sociais construídas ao longo da vida.
Quanto maior o investimento emocional nessa experiência, maior tende a ser o impacto da derrota. Segundo Cozac, sofrer após uma eliminação importante é uma resposta esperada quando existe forte vínculo afetivo com a equipe.
As emoções costumam seguir um processo de adaptação
Os psicólogos explicam que muitas pessoas passam inicialmente pela incredulidade. Depois surgem a frustração, a raiva e a procura por responsáveis pelo resultado. Com o passar dos dias, essas emoções costumam perder intensidade e dar espaço à aceitação.
Esse processo não acontece da mesma maneira para todos, mas faz parte da adaptação emocional diante de uma perda simbólica. Estudos em neurociência citados pelo especialista mostram que esse tipo de perda ativa áreas cerebrais relacionadas ao sofrimento emocional, embora não possa ser comparado ao luto provocado pela morte de um familiar.
Os algoritmos podem prolongar a sensação de tristeza
Se no passado a frustração diminuía naturalmente com o passar dos dias, hoje as redes sociais tendem a manter o assunto em evidência. Segundo João Ricardo Cozac, os algoritmos exibem repetidamente gols, lances, memes, críticas e debates sobre a eliminação, fazendo com que o torcedor reviva a derrota diversas vezes ao longo do dia.
Essa exposição contínua dificulta o afastamento emocional do evento e pode prolongar sentimentos como estresse, irritação e tristeza. Para quem percebe que o conteúdo está aumentando o sofrimento, reduzir o tempo nas redes sociais pode ajudar no processo de recuperação emocional.
Retomar a rotina ajuda na elaboração da perda
Entre as orientações dos especialistas estão aceitar que a tristeza faz parte da experiência de torcer, evitar assistir repetidamente aos momentos da derrota e voltar gradualmente às atividades do dia a dia. Trabalho, estudos, convivência com a família, prática de exercícios físicos e momentos de lazer ajudam o cérebro a direcionar a atenção para outras experiências.
Segundo o psicólogo, para a maioria das pessoas essas emoções diminuem de intensidade em poucos dias. Caso o sofrimento permaneça intenso por um período prolongado ou comece a interferir na rotina, no sono, no trabalho ou nos relacionamentos, a recomendação é procurar avaliação com um psicólogo ou outro profissional de saúde mental.
As crianças também precisam de acolhimento após a eliminação
O impacto da derrota também pode ser significativo entre crianças e adolescentes. Ao g1, a psicóloga e psicanalista Roseli Moreno explica que atletas e seleções costumam ocupar o lugar de heróis durante a infância. Quando esses ídolos perdem, é comum surgirem tristeza, frustração e até raiva.
Segundo a especialista, pais e responsáveis devem acolher esses sentimentos e evitar minimizar a dor com frases como “é só um jogo”. Conversar sobre a frustração ajuda a criança a compreender que derrotas fazem parte da vida e que admirar um atleta não significa esperar que ele seja perfeito.
Roseli Moreno também recomenda limitar a exposição contínua a memes, vídeos e discussões sobre a eliminação nas redes sociais. Alternar esse conteúdo com outras atividades permite que a criança processe melhor a experiência e diminui a chance de prolongar o sofrimento.
Buscar ajuda pode ser necessário quando o sofrimento persiste
O luto esportivo costuma diminuir naturalmente com o passar dos dias. No entanto, quando a tristeza permanece intensa, compromete a rotina ou se associa a outros sinais de sofrimento emocional, a orientação dos psicólogos é buscar atendimento profissional. O acompanhamento especializado ajuda a identificar se existem outros fatores envolvidos e oferece estratégias adequadas para enfrentar esse momento.
Fonte: G1

