Apesar de fazer parte da cultura e das relações sociais, o consumo de álcool está associado a milhões de mortes por ano, diferentes tipos de câncer, doenças crônicas e dependência, segundo organismos internacionais e estudos recentes
O álcool continua presente em comemorações, encontros familiares, eventos esportivos e ambientes de trabalho, mesmo diante de um conjunto crescente de evidências sobre seus impactos na saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo da substância está relacionado a cerca de 2,6 milhões de mortes por ano em todo o mundo e aumenta o risco de diversas doenças, incluindo diferentes tipos de câncer.
Embora o consumo varie entre os países, estima-se que aproximadamente 2,3 bilhões de pessoas consumam bebidas alcoólicas. Para especialistas em saúde e dependência química, a ampla aceitação social do álcool contribui para que seus riscos sejam frequentemente subestimados, mesmo diante das evidências científicas acumuladas nas últimas décadas.
O que você precisa saber
- O fato: O álcool continua amplamente aceito socialmente, apesar dos riscos comprovados à saúde.
- Quando: Dados e estudos recentes reforçam os impactos do consumo de álcool.
- Onde: O consumo ocorre em praticamente todos os países e faz parte de diferentes contextos sociais.
- Importa porque: O álcool está associado à dependência, ao câncer, às doenças hepáticas, cardiovasculares, acidentes e milhões de mortes anuais.
O consumo de álcool permanece integrado à vida social
O álcool ocupa um espaço raro entre as substâncias psicoativas. Ele aparece em aniversários, casamentos, confraternizações, reuniões profissionais, aeroportos e até em refeições familiares. O hábito de brindar faz parte da cultura de muitos países e reforça a percepção de normalidade em torno da bebida.
Essa aceitação social contrasta com os impactos observados na saúde pública. A OMS estima que aproximadamente uma em cada vinte mortes registradas no mundo tenha relação com o consumo de álcool. Além dos danos ao fígado, a bebida também está associada a doenças cardiovasculares, problemas gastrointestinais, acidentes, episódios de violência e transtornos relacionados à dependência.
Evidências indicam que não existe dose totalmente segura
Durante muitos anos, parte da literatura científica sugeriu que pequenas quantidades de álcool poderiam oferecer benefícios cardiovasculares. Pesquisas mais recentes, porém, revisaram essa interpretação e apontam que os resultados observados anteriormente podem ter sido influenciados por diferenças no estilo de vida das pessoas avaliadas, e não pelo consumo da bebida em si.
Atualmente, especialistas afirmam que nenhuma quantidade de álcool pode ser considerada completamente isenta de riscos. Mesmo o consumo moderado está relacionado ao aumento da probabilidade de desenvolver algumas doenças e sofrer lesões decorrentes de acidentes.
Uma revisão científica publicada em 2021 mostrou que cerca de duas doses padrão já elevam significativamente o risco de acidentes envolvendo veículos e de outros tipos de lesões. Episódios de consumo excessivo em curto período, conhecidos como binge drinking, aumentam ainda mais esse risco.
O álcool também aumenta o risco de diferentes tipos de câncer
Um dos pontos que ainda gera pouca conscientização é a relação entre o álcool e o câncer. A Organização Mundial da Saúde classifica o álcool como agente cancerígeno do Grupo 1, categoria reservada às substâncias com evidências suficientes de que causam câncer em seres humanos.
Entre os tipos de câncer associados ao consumo de álcool estão os de mama, fígado, boca, esôfago, laringe e colorretal. Mesmo assim, muitas pessoas desconhecem essa ligação e costumam relacionar o álcool apenas ao alcoolismo ou aos acidentes de trânsito.
Em 2025, o Cirurgião-Geral dos Estados Unidos divulgou um comunicado reforçando que o álcool aumenta o risco de pelo menos sete tipos de câncer e defendeu a atualização das advertências presentes nos rótulos das bebidas alcoólicas.
As orientações sobre o consumo seguem em debate
As recomendações oficiais sobre o consumo de álcool continuam sendo discutidas por autoridades de saúde. A atualização das Diretrizes Alimentares para os Americanos, publicada para o período de 2025 a 2030, retirou a recomendação anterior que estabelecia limites diários de consumo para homens e mulheres e também reduziu a abordagem específica sobre a relação entre álcool e câncer.
A mudança recebeu críticas de especialistas em saúde pública, que consideram que as evidências científicas atuais justificam orientações mais claras sobre os riscos associados ao consumo da bebida.
Enquanto isso, profissionais que atuam no tratamento da dependência química alertam que enxergar o álcool apenas como um facilitador das relações sociais pode minimizar os efeitos do consumo frequente e favorecer o desenvolvimento da dependência ao longo do tempo.
A experiência com o tabaco mostra que mudanças culturais são possíveis
Pesquisadores apontam que a redução do tabagismo nas últimas décadas demonstra como campanhas de informação, políticas públicas, restrições à publicidade e advertências sanitárias podem modificar comportamentos sociais. Nos Estados Unidos, a proporção de fumantes caiu de 42,4% da população em 1965 para 11,6% em 2022.
No caso do álcool, embora alguns indicadores apontem redução discreta no consumo em determinados países, a bebida permanece amplamente integrada às relações sociais, o que dificulta mudanças semelhantes às observadas com o cigarro.
Especialistas reforçam que a legalidade e a ampla aceitação social de uma substância não significam ausência de riscos. As evidências científicas atuais mostram que o consumo de álcool continua associado a diferentes doenças e que reduzir sua ingestão pode trazer benefícios para a saúde. Pessoas que apresentem dificuldade para controlar o consumo ou sintomas relacionados ao uso da bebida devem procurar avaliação de um profissional de saúde ou de um serviço especializado.
Fonte: G1

