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quinta-feira, 1 outubro, 2026
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Câncer de mama: 70% das mulheres de 20 a 29 anos atendidas pelo SUS recebem o diagnóstico em estágio avançado

Sete em cada dez mulheres de 20 a 29 anos diagnosticadas com câncer de mama no Sistema Único de Saúde (SUS) chegam ao diagnóstico nos estágios 3 ou 4, as fases mais avançadas da doença. O dado faz parte do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama no SUS, elaborado pelo Observatório de Oncologia, ligado à Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale), em parceria com o Instituto Natura.

O relatório, divulgado nesta quinta-feira (1º), analisa dados públicos do Ministério da Saúde sobre exames, diagnósticos, tratamentos e mortes entre 2015 e 2025. Considerando todas as idades, 51% dos diagnósticos registrados em 2025 ocorreram em fases avançadas.

O que você precisa saber

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  • O fato: Sete em cada dez mulheres de 20 a 29 anos diagnosticadas pelo SUS chegam aos estágios 3 ou 4.
  • Quando: O levantamento analisa dados de 2015 a 2025 e foi divulgado nesta quinta-feira (1º).
  • Onde: Dados da rede pública de saúde em todo o Brasil.
  • Importa porque: O estágio em que o câncer de mama é identificado influencia o tratamento e as chances de controle da doença.

O diagnóstico tardio é mais frequente entre mulheres jovens

A diferença aparece em todas as faixas de idade e diminui conforme a paciente envelhece. Entre as mulheres de 30 a 39 anos, 62,7% foram diagnosticadas nos estágios 3 ou 4. Na faixa de 40 a 49 anos, o índice foi de 54,6%. Entre as mulheres de 50 a 69 anos que fazem o rastreamento de rotina, a proporção caiu para 47,9%.

Nas mulheres mais jovens, o rastreamento de rotina não está indicado porque a doença é menos frequente. Nessa faixa, os tumores costumam ser descobertos quando já provocam sintomas, e parte deles apresenta comportamento agressivo.

“Abaixo dos 40 anos, há proporcionalmente mais tumores de alto grau, como os triplo-negativos e os HER2 positivos, de crescimento geralmente mais rápido”, explica a mastologista Juliana Francisco, consultora médica do Instituto Natura. Segundo ela, a maior densidade das mamas também pode reduzir a sensibilidade da mamografia.

O atraso também pode ocorrer pela baixa suspeição. Como o câncer de mama é menos comum aos 20 ou 30 anos, um nódulo pode ser inicialmente associado a uma alteração benigna, enquanto dores e outras mudanças podem ser relacionadas ao ciclo menstrual.

“Muitas jovens sequer sabem que o câncer de mama é possível nessa idade”, observa o oncologista especializado em mama Gilberto Amorim, da Oncologia D’Or e membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

Nódulo novo e persistente, alteração na pele com aspecto de casca de laranja, retração ou inversão recente do mamilo, secreção transparente ou sanguinolenta e um gânglio duro e persistente na axila precisam de avaliação médica em qualquer idade. Esses sinais não significam necessariamente câncer, e a ausência de casos na família não elimina a possibilidade da doença.

A cobertura da mamografia permanece abaixo da meta da OMS

A cobertura da mamografia de rastreamento entre mulheres de 50 a 69 anos atendidas pelo SUS ficou em 22,1% em 2025. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que pelo menos 70% desse público seja examinado, meta que o Brasil não atingiu na série apresentada.

Em 2015, o índice era de 26,8%. Em 2020, caiu para 13,6%, e a recuperação não alcançou os níveis anteriores. O volume de exames recuou pelo segundo ano consecutivo, com queda de 1% em 2025.

“A pandemia agravou um problema que já existia, e o efeito ainda deve aparecer nos próximos anos: o diagnóstico que deixou de ser feito em determinado ano chega ao seguinte com estadiamento mais avançado”, explica Nina Melo, coordenadora de Pesquisa e Políticas Públicas da Abrale.

As diferenças regionais também são expressivas. Norte e Centro-Oeste registraram as menores coberturas, com 10,6% e 13,5%. Piauí teve 32,4%, Bahia 28,8% e São Paulo 28,7%. Os números consideram apenas a rede pública e podem subestimar a cobertura total, enquanto cerca de 75% da população depende do SUS.

O Brasil adota um modelo oportunístico de rastreamento, em que o exame é realizado quando a mulher chega a uma consulta e recebe a solicitação. Quem não procura o serviço não é convocada.

Entre as alternativas discutidas pelos especialistas está o rastreamento organizado, no qual o serviço identifica quem deve fazer o exame, convoca essas mulheres, garante vagas e acompanha os resultados.

Entidades médicas defendem rastreamento anual a partir dos 40 anos

O Ministério da Saúde ampliou o acesso à mamografia para mulheres de 40 a 49 anos por demanda, mediante avaliação de risco e solicitação médica, e segue defendendo o exame a cada dois anos.

A Sociedade Brasileira de Mastologia, o Colégio Brasileiro de Radiologia, a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) defendem o rastreamento anual a partir dos 40 anos.

Para os especialistas citados na apuração, ampliar o acesso ao exame é um avanço, mas a organização do rastreamento permanece como um dos pontos centrais da discussão.

“Se o país não alcança a cobertura adequada nem na faixa já prioritária, o desafio tende a crescer com o público elegível, e só dados específicos de 40 a 49 anos permitirão medir o efeito”, avalia Juliana Francisco.

O tempo entre diagnóstico e tratamento ainda supera o prazo legal

O intervalo médio entre o diagnóstico e o início do tratamento caiu de 148 dias em 2015 para 86 dias em 2025, o menor valor da série. O período ainda supera os 60 dias previstos pela Lei 12.732, de 2012. Entre 2015 e 2025, cerca de 62% das pacientes começaram o tratamento depois desse prazo.

Em 2025, mulheres com câncer de mama no estágio 1 levaram em média 101 dias para iniciar o tratamento, enquanto aquelas no estágio 3 esperaram 76 dias. A diferença pode estar relacionada à priorização dos casos considerados mais urgentes, segundo a análise apresentada na apuração.

Não existe um número exato de dias para que um tumor mude de estágio. O crescimento varia conforme a biologia da doença. Segundo Gilberto Amorim, tumores HER2 positivos e triplo-negativos podem apresentar crescimento mais rápido e, em alguns casos, já apresentar metástase à distância quando o diagnóstico demora.

Uma meta-análise citada no levantamento associou cada quatro semanas de atraso na cirurgia a um aumento de 8% no risco de morte pela doença. A legislação também prevê prazo de até 30 dias entre a suspeita e a confirmação do diagnóstico.

O estágio influencia o tratamento e as chances de controle da doença

O momento em que o câncer de mama é identificado influencia as possibilidades de tratamento e as chances de controle da doença. No estágio 1, a taxa de cura citada na apuração gira em torno de 90%. Em geral, são tumores de até 2 centímetros, sem comprometimento da axila, e muitas pacientes começam o tratamento com cirurgia conservadora, seguida de radioterapia e tratamento hormonal.

O estadiamento, porém, não determina sozinho a escolha terapêutica. O câncer de mama apresenta diferentes características biológicas, e pacientes com tumores do mesmo tamanho podem responder de maneiras distintas, explica a mastologista e radiologista Renata Reis Pinto, pós-doutora pelo Lunenfeld-Tanenbaum Research Institute.

“A escolha entre começar pela cirurgia ou pela quimioterapia depende do perfil molecular do tumor, como a presença de receptores hormonais e de HER2, e também do grau e do estadiamento clínico”, afirma.

Nos estágios 3 e 4, a sobrevida é menor e o tratamento tende a ser mais complexo. A abordagem pode incluir quimioterapia antes da cirurgia, procedimentos maiores, como a mastectomia, e radioterapia.

O diagnóstico tardio também pode aumentar os custos do tratamento, com terapias mais longas, possíveis sequelas e afastamentos prolongados do trabalho, segundo a avaliação de Gilberto Amorim apresentada na apuração.

Mortes por câncer de mama atingiram recorde em 2025

O câncer de mama matou 21.668 mulheres no Brasil em 2025, o maior número da série e 39% acima do registrado em 2015. A taxa de mortalidade passou de 14,8 para 19,5 óbitos por 100 mil mulheres e permaneceu praticamente estável desde 2022.

Por ser uma taxa bruta, o indicador não desconta o efeito do envelhecimento da população. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos diagnósticos por ano entre 2026 e 2028.

Os especialistas citados no levantamento defendem uma política integral para o câncer de mama, com linhas de cuidado coordenadas entre estados e municípios, atendimento rápido para casos com sinais suspeitos e rastreamento organizado para mulheres sem sintomas.

A navegação de pacientes, com equipes responsáveis por acompanhar a trajetória da mulher e reduzir barreiras entre as etapas do atendimento, também aparece entre as medidas defendidas no relatório.

Ministério da Saúde contesta interpretação sobre queda nas mamografias

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que não considera correta a interpretação de que houve queda na produção de mamografias e disse que a análise da cobertura deve considerar também a parcela da população atendida pela rede privada.

Segundo a pasta, o SUS realizou 4,4 milhões de mamografias em 2025, o maior número registrado, incluindo 2,66 milhões de exames de rastreamento entre mulheres de 50 a 69 anos, também recorde da série histórica. O ministério citou ainda a pesquisa Vigitel 2025, segundo a qual 92% das mulheres de 50 a 59 anos disseram ter realizado mamografia.

A pasta informou que, desde o ano passado, mulheres de 40 a 74 anos podem realizar o exame mesmo sem sinais ou sintomas. Antes, a faixa indicada pelo Ministério da Saúde era de 50 a 69 anos.

No tratamento, o Ministério da Saúde informou que o número de cirurgias relacionadas ao câncer de mama chegou a 63,6 mil, alta de 13,7% em relação a 2023. Os procedimentos de radioterapia cresceram 17,2% e os de quimioterapia, 14,5% no mesmo período.

A pasta também informou investimentos de R$ 26,16 milhões, por meio do Programa Nacional de Apoio à Atenção Oncológica (Pronon), em equipamentos para biópsias guiadas por imagem, além de R$ 6,85 milhões em mamógrafos. Carretas itinerantes atenderam mais de 189 mil mulheres, e 52 municípios zeraram a fila de mamografia, segundo o ministério.

Fonte: G1

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