Método desenvolvido por pesquisadores da USP identifica portadores de bactérias resistentes em poucas horas, reduz o tempo de isolamento desnecessário e pode otimizar o controle de infecções hospitalares.
Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e do Hospital das Clínicas da FMUSP desenvolveram um teste capaz de identificar portadores de enterobactérias resistentes aos carbapenêmicos (ERC) em apenas seis horas. A tecnologia reduz em até três dias o tempo de diagnóstico em comparação ao método convencional e pode acelerar decisões importantes para o controle de infecções hospitalares.
Os resultados foram apresentados em quatro estudos publicados em três periódicos científicos internacionais. Segundo os pesquisadores, o exame de baixo custo funciona de forma semelhante aos testes rápidos de farmácia e permite identificar precocemente pacientes colonizados por essas bactérias. Apesar do ganho de tempo, os autores ressaltam que o teste, sozinho, não é suficiente para impedir a transmissão dentro dos hospitais.
O que você precisa saber
- O fato: pesquisadores da USP criaram um teste que identifica superbactérias em seis horas.
- Quando: resultados publicados em quatro estudos científicos.
- Onde: pesquisa desenvolvida pela FMUSP e Hospital das Clínicas da FMUSP.
- Importa porque: o diagnóstico mais rápido pode reduzir isolamentos desnecessários e acelerar medidas de controle de infecções.
As superbactérias representam uma ameaça crescente
As Enterobactérias Resistentes aos Carbapenêmicos (ERC) formam um grupo de bactérias resistentes a antibióticos utilizados em infecções graves, como os carbapenêmicos. Entre elas estão espécies como Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica essas bactérias como prioridade crítica devido ao impacto na saúde pública.
Quando essas bactérias provocam infecções na corrente sanguínea, pulmões ou trato urinário, o tratamento se torna mais difícil. Segundo a apuração, infecções por ERC em casos de sepse apresentaram mortalidade de 63,8% no Brasil, índice superior ao observado em infecções causadas por outras bactérias.
Colonização é diferente de infecção
Muitos pacientes carregam essas bactérias no intestino sem apresentar sintomas. Essa condição é chamada de colonização e não exige tratamento com antibióticos. O risco aumenta em pacientes internados, principalmente aqueles com imunidade comprometida ou que utilizam dispositivos invasivos, situação em que a bactéria pode causar infecções e ser transmitida para outros pacientes.
O novo teste reduz o tempo de resposta
O método utiliza um swab retal que permanece por seis horas em um meio de cultura antes de ser aplicado em um teste imunocromatográfico semelhante aos testes rápidos utilizados em farmácias. O exame identifica a presença das enzimas responsáveis pela resistência aos antibióticos e informa qual tipo está presente.
Segundo o infectologista Matias Chiarastelli Salomão, professor colaborador da FMUSP e um dos autores da pesquisa, a principal vantagem está na combinação de rapidez, simplicidade e baixo custo, permitindo que hospitais com menos recursos realizem o diagnóstico mais cedo.
O diagnóstico rápido melhora a tomada de decisão
Durante a validação, o teste reduziu o tempo para retirar pacientes não colonizados do isolamento preventivo de 47 para 23 horas. Apesar disso, os pesquisadores não observaram redução estatisticamente significativa na transmissão das bactérias durante a internação.
Os autores explicam que o exame representa apenas uma etapa do controle das infecções hospitalares. Para reduzir a disseminação das superbactérias, continuam sendo indispensáveis medidas como higiene das mãos, limpeza adequada dos ambientes, isolamento quando indicado, vigilância epidemiológica e uso racional de antibióticos.
A tecnologia ainda depende de avaliação para uso no SUS
Segundo os pesquisadores, o teste pode beneficiar especialmente UTIs, unidades de transplante, hematologia, oncologia e centros de tratamento de queimados. Antes de uma eventual incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS), a tecnologia ainda precisará passar pela regularização na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pela avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).
Se aprovado, o próximo passo envolve planejamento para aquisição da tecnologia, distribuição aos hospitais e capacitação dos laboratórios responsáveis pelos exames.
Fonte: G1
