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terça-feira, 21 julho, 2026
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Primeiro consenso internacional orienta quando reduzir ou interromper Ozempic e Mounjaro no tratamento da obesidade

Documento publicado no The Lancet Diabetes & Endocrinology reúne orientações inéditas sobre dose, alimentação, atividade física e saúde mental para pacientes que utilizam medicamentos contra a obesidade.

O primeiro consenso internacional sobre o uso de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro trouxe orientações inéditas para pacientes e profissionais de saúde sobre quando reduzir a dose, fazer pausas ou interromper o tratamento da obesidade. Publicado no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology, o documento reforça que o sucesso da terapia não deve ser medido apenas pela perda de peso, mas também pela preservação da massa muscular, pela qualidade da alimentação, pela saúde mental e pelo controle das doenças associadas.

Elaborado pela European Association for the Study of Obesity (EASO), pela European Federation of the Associations of Dietitians (EFAD) e pela European Coalition for People Living with Obesity (ECPO), o consenso não altera as indicações dos medicamentos já aprovados. A proposta é orientar um acompanhamento mais individualizado durante todo o tratamento, reconhecendo que cada paciente responde de forma diferente às medicações.

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O que você precisa saber

  • O fato: Primeiro consenso internacional define recomendações para o uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro.
  • Quando: Documento publicado em julho no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology.
  • Onde: Consenso elaborado por entidades europeias especializadas em obesidade e nutrição.
  • Importa porque: O tratamento passa a considerar qualidade de vida, preservação muscular, alimentação e saúde mental, além da perda de peso.

A dose máxima nem sempre é necessária

Uma das principais recomendações do consenso é abandonar a ideia de que todos os pacientes precisam atingir a dose máxima prevista em bula. Segundo o documento, a resposta clínica deve orientar cada decisão. Pessoas que apresentam boa saciedade, emagrecimento satisfatório e boa tolerância ao medicamento podem manter doses menores sem prejuízo dos resultados.

Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e diretor do Departamento de Diabetes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica que o tratamento deve ser personalizado. Pacientes que precisam perder grande quantidade de peso podem necessitar de doses mais altas, enquanto aqueles com doenças metabólicas e menor excesso de peso podem alcançar benefícios com doses inferiores.

A interrupção depende da evolução clínica

O consenso também responde a uma das dúvidas mais frequentes entre pacientes: quando interromper o tratamento. Os especialistas afirmam que essa decisão deve ser tomada em conjunto entre médico e paciente, considerando benefícios, efeitos adversos e evolução clínica.

Entre as situações que exigem reavaliação estão náuseas e vômitos persistentes, dificuldade para manter a hidratação, perda de peso acelerada, ingestão insuficiente de nutrientes e sinais de desnutrição. O documento também chama atenção para pacientes que permanecem por períodos prolongados ingerindo menos de 800 calorias por dia.

Rodrigo Lamounier, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e membro da SBEM, destaca que interromper a medicação não significa necessariamente que o tratamento fracassou. Em alguns casos, a pausa ocorre após o paciente atingir os objetivos estabelecidos ou quando reduzir a dose melhora a tolerância ao medicamento.

O tratamento deve preservar a saúde, e não apenas reduzir o peso

O consenso reforça que a perda de peso, isoladamente, não é suficiente para avaliar o sucesso do tratamento. Parte do peso eliminado durante o uso dos agonistas de GLP-1 corresponde à redução de massa muscular, situação que pode aumentar o risco de fraqueza, limitação funcional e sarcopenia, principalmente entre pessoas mais velhas.

Segundo Fernando Valente, o acompanhamento deve considerar indicadores como estado nutricional, capacidade física e controle das doenças associadas à obesidade. Benefícios como melhora da glicemia, redução do risco cardiovascular, controle da gordura no fígado e da apneia do sono também precisam fazer parte da avaliação clínica.

“Pouco adianta reduzir o número na balança à custa de uma piora nutricional, de cansaço, de queda de cabelo intensa ou da incapacidade de se exercitar e viver bem”, afirma o endocrinologista.

Proteína e exercícios de força passam a ocupar papel central

Pela primeira vez, um consenso internacional coloca a alimentação rica em proteínas e os exercícios de força entre os pilares do tratamento com medicamentos para obesidade. A recomendação é consumir aproximadamente entre 1 e 1,5 grama de proteína por quilo de peso ajustado ao dia, respeitando um mínimo de 60 gramas diárias, distribuídas ao longo das refeições.

Quando a alimentação não consegue atingir essa meta, suplementos podem ser considerados após avaliação individual. A redução do apetite provocada pelos medicamentos pode dificultar o consumo adequado de proteínas justamente no momento em que o organismo precisa preservar a massa muscular.

O documento também destaca a musculação e outras atividades de fortalecimento muscular como parte indispensável da estratégia terapêutica. O objetivo é reduzir a perda de massa magra e preservar a funcionalidade durante o processo de emagrecimento.

Rodrigo Lamounier explica que, principalmente entre idosos, a capacidade funcional importa mais do que o volume de músculos. Segundo ele, avaliações como levantar da cadeira sem apoio das mãos ou medir a força de preensão palmar ajudam a identificar riscos relacionados ao envelhecimento.

A alimentação continua sendo parte do tratamento

O consenso alerta que comer menos não significa, necessariamente, alimentar-se melhor. A redução do apetite pode diminuir também a ingestão de vitaminas, minerais, fibras e outros nutrientes importantes para o organismo.

Por esse motivo, a orientação é priorizar alimentos ricos em nutrientes, como frutas, verduras, legumes, grãos integrais e fontes de proteína de boa qualidade. Emagrecer rapidamente também pode aumentar o risco de anemia e favorecer a formação de cálculos na vesícula. O documento cita ainda que os grandes estudos clínicos não demonstraram aumento significativo do risco de pancreatite em comparação com placebo.

Os especialistas não recomendam acompanhamento intensivo para todos os pacientes. A proposta é direcionar avaliações mais frequentes para grupos com maior risco, como idosos, pessoas com histórico de cirurgia bariátrica, transtornos alimentares, perda de peso muito acelerada ou episódios prévios de desnutrição.

Nesses casos, podem ser indicados exames laboratoriais para avaliar hemograma, ferro, zinco, vitaminas do complexo B, ácido fólico e vitamina D, sempre conforme avaliação médica individual.

A saúde mental também deve ser acompanhada

Além dos aspectos físicos e nutricionais, o consenso internacional recomenda que a saúde mental faça parte do acompanhamento de pacientes em tratamento contra a obesidade. A orientação parte do reconhecimento de que mudanças rápidas no peso, na alimentação e na relação com a comida podem exigir suporte especializado em alguns casos.

Os autores destacam que o documento não associa os medicamentos ao aumento de problemas psicológicos. Ainda assim, defendem uma avaliação individual ao longo do tratamento, principalmente entre pessoas com histórico de transtornos alimentares ou sofrimento emocional relacionado à alimentação.

Segundo Fernando Valente, perder peso não deve significar aumento do sofrimento mental. Quando o alimento deixa de ocupar um papel central na rotina, algumas pessoas precisam desenvolver novas formas de lazer, convivência e bem-estar. Nesses casos, o acompanhamento psicológico pode ser indicado conforme avaliação da equipe responsável pelo tratamento.

O reganho de peso continua sendo um desafio

O consenso também aborda um dos principais desafios após a interrupção dos medicamentos: o reganho de peso. Segundo os especialistas, esse fenômeno é relativamente frequente porque o organismo reduz o gasto energético e aumenta o apetite como resposta à perda de peso.

Fernando Valente explica que esse mecanismo faz parte da adaptação do corpo e pode favorecer o retorno dos quilos perdidos quando o tratamento é interrompido sem planejamento. Por isso, a decisão de reduzir ou suspender a medicação deve ser acompanhada de estratégias para manter os resultados obtidos.

Entre as medidas recomendadas estão a prática regular de atividade física, principalmente exercícios de força, uma alimentação equilibrada com ingestão adequada de proteínas, carboidratos complexos e gorduras insaturadas, além da manutenção do acompanhamento médico ou multiprofissional.

Em algumas situações, o médico pode avaliar a manutenção do tratamento com doses menores ou a substituição por outra medicação mais adequada ao perfil do paciente e ao planejamento de longo prazo.

O consenso reforça que o tratamento deve ser individualizado

Os autores deixam claro que o documento não estabelece regras obrigatórias nem substitui a avaliação médica. As recomendações foram elaboradas a partir das melhores evidências disponíveis e da experiência clínica dos especialistas, reconhecendo que ainda existem dúvidas que dependem de novos estudos.

A principal mensagem do consenso é que o tratamento da obesidade vai além da perda de peso. Dose do medicamento, alimentação, preservação da massa muscular, atividade física, saúde mental e acompanhamento profissional fazem parte da mesma estratégia terapêutica. A decisão de reduzir, pausar ou interromper Ozempic, Wegovy, Mounjaro e outros medicamentos da mesma classe deve sempre considerar as características e a evolução clínica de cada paciente.

As recomendações foram publicadas no periódico científico The Lancet Diabetes & Endocrinology e servem como referência para profissionais de saúde. O tratamento da obesidade deve ser conduzido por um médico, que poderá indicar, quando necessário, o acompanhamento de nutricionistas, psicólogos e outros especialistas conforme as necessidades de cada paciente.

Fonte: G1

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